quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Fintechs ameaçam monopólio dos bancos e geram economia

Por Vitor Lima

Você pede uma saída do serviço, caminha até uma agência bancária. Ao tentar entrar, é barrado: precisa depositar os objetos de metais no guarda-volumes. Tira o celular e a chave, mas é barrado novamente. Faltaram aquelas moedinhas do fundo da bolsa... Agora, sim. Dentro da agência, pega a senha para pagar algumas contas. Enquanto a aguarda a sua vez, uma surpresa: o sistema caiu. Sem alternativas, você terá que voltar no outro dia... 

Este tipo de situação, aliado à burocracia e ao atendimento ruim da maioria dos bancos, têm criado boas oportunidades para as fintechs, como são chamadas as startups que trabalham no setor financeiro. Com o auxílio do avanço tecnológico, eles propiciam aos usuários uma experiência muito mais agradável e eficiente – apenas com o smartphone é possível realizar todos os serviços, sem precisar ir a nenhum ponto físico para assinar contrato ou levar algum documento.  

É o caso da mais famosa delas, o Nubank, que oferece cartão de crédito da bandeira Mastercard. O grande diferencial desta startup é a ausência de taxa de anuidade e de agências físicas. Todo o suporte aos clientes é feito pelo próprio smartphone, no qual o cliente pode aumentar ou diminuir o limite, pedir novo cartão ou bloqueá-lo – para casos mais complexos o usuário pode utilizar e-mail ou chat. E ao contrário das instituições bancárias convencionais, o atendimento da equipe do Nubank é feito de forma mais próxima, simpática e descontraída, como podemos notar na imagem abaixo.  O negócio deu certo: ela se consolidou como a maior fintech brasileira e já recebeu mais 4,5 milhões de pedidos de cartão. 
Um dos diferencias das fintechs, em especial
do Nubank, é o atendimento informal e
eficiente  | Imagem: Reprodução

Outro exemplo de fintech é a Lendico, startup de empréstimo pessoal online. Nela o usuário faz a simulação de quanto gostaria de pegar emprestado e em quanto tempo gostaria de pagar. Se a simulação agradar, é só pedir uma proposta “oficial” e aguardar a resposta, que leva apenas três minutos. Depois, basta enviar as fotos dos documentos requeridos e do contrato assinado pelo smartphone e aguardar. Em até quatro dias o dinheiro estará na sua conta, sem precisar sair de casa. Atualmente, o portal da Lendico recebe três mil pedidos de empréstimos por dia, dos quais 5% são aprovados. Em pouco mais de um ano, a Lendico já viabilizou mais de R$ 32 milhões de reais em empréstimos a 5 mil clientes.

Para o Ceo e um dos sócios fundadores do aplicativo Celcoin, Marcelo França, a aceitação das fintechs pelos usuários tem superado as expectativas. Ele colocou o Celcoin no mercado há pouco mais de seis meses e já angariou mais de 60 mil usuários. 

O público-alvo da startup, conforme ele mesmo explica, são as pessoas que ainda enfrentam filas nas lotéricas e agências para realizar serviço básicos: “Com o aplicativo instalado, qualquer pessoa com um celular na mão pode pagar contas, fazer recargas de celular com desconto, transferir dinheiro, depositar e sacar em redes conveniadas. Não é necessário ter conta em banco, não há restrições na aprovação, que é imediata, e não há custo com adesão, nem mensalidade. Basta ter um celular”, conta.

A praticidade realmente parece conquistar os usuários. É o que ocorreu com a produtora de eventos, Kelly Karoline Zanetto, que aderiu ao Nubank a um mês. “Eu gosto de saber os valores das próximas faturas com os valores parcelados, do fato de não precisar fazer contato telefônico, de não ter vinculo com banco e da praticidade do app”.

É o fim dos bancos?

França, que tem longa atuação na área (possui passagens pelo Banco Bozano Simonsen, Corretora Investshop.com, Resource IT e pelo Lemon Bank – instituição adquirida pelo Banco do Brasil em 2009), avalia que o setor financeiro no Brasil tem pouca competição, o que cria oportunidades para as fintechs. “Elas nascem para resolver problemas específicos em diferentes áreas, como seguros, crédito ou pagamentos. Quem ganha com isso é o consumidor, com serviços melhores e mais baratos”, analisa. 

A alta adesão dos clientes às startups aparentemente tem causado preocupação por parte dos bancos. Eles que há tempos também investem na descentralização dos atendimentos, ao incentivar os clientes a utilizar o internet banking e os aplicativos, estão acompanhando o crescimento das fintechs com olhos bem abertos. 

França não crê no fim dos bancos, mas acredita que eles precisarão se ajustar às mudanças do mercado | Foto: Divulgação 

De acordo com a Pesquisa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban) de Tecnologia Bancária 2015, as transações feitas por internet banking e mobile banking ultrapassaram metade do total e atingiram 54%. Contudo, o crescimento mais relevante foi nas transações feitas pelo mobile banking, que cresceram 138% em relação a 2014. 

Em nota, a Febraban esclarece que “acompanha com interesse o desenvolvimento das startups do setor financeiro” e que “inovações tecnológicas que possam trazer benefícios ao consumidor, mantendo a solidez e confiabilidade dos serviços, contribuem para a expansão e aumento da qualidade do setor”.

Ao ser questionado se as fintechs representam o fim dos bancos, França usa a experiência e sentencia: “Eles vão continuar existindo, mas vão se ajustar a um novo cenário”. Para ele, a tendência é que eles façam uma redução nos custos e se tornem, cada vez mais, digitais. “Acredito que as fintechs poderão substituir os bancos em nichos e atividades específicas. Mas certamente os bancos continuarão existindo, mas de um jeito diferente”, opina. 

A Febraban, por sua vez, defende que as inovações trazidas pelas fintechs devem levar a uma “evolução da regulamentação do setor” por parte das autoridades competentes. “A Febraban espera que essa atualização das normas e do arcabouço legal hoje existente seja capaz de garantir condições equivalentes de atuação, para os agentes do mercado e facilitar a absorção de novas tecnologias e processos pelas instituições financeiras que já existem, sem tolher a contribuição das empresas inovadoras mais recentes para o bom funcionamento do sistema”.

Na disputa entre bancos e fintechs, Kelly, que avalia negativamente os serviços prestados instituições tradicionais, parece ficar do lado da segunda opção. “Os bancos cobram taxas abusivas sem benefícios proporcionais. Isso sem falar das cobranças de tarifas sem prévio aviso”, justifica. 

Banqueiros x bancários 

Todo esse imbróglio causa apreensão na classe dos bancários, que ano após ano observam a redução no número de agências bancárias e vêm seus empregos ameaçados. Segundo a Pesquisa Febraban de Tecnologia Bancária 2015, o ano registrou queda de 200 agências na comparação com 2014 (passou de 23.100 para 22.900). 

Conforme conta o presidente do Sindicato dos Bancários do ABC, Belmiro Moreira, levantamento do Dieese aponta que nos primeiros nove meses de 2016 foram fechados 9.258 postos de empregos bancários, número 52% maior na comparação com o mesmo período do ano anterior. “Isso por si só já demonstra a mudança no setor principalmente com a implantação das novas tecnologias”, aponta, receoso. 

Ele esclarece que o sindicato atua de várias maneiras a fim de reverter este quadro, principalmente nas negociações com os bancos, reivindicando o fim das demissões. “Os bancos têm lucros bilionários e podem garantir o emprego numa construção de realocação e reposicionamento desses trabalhadores garantindo um atendimento de qualidade aos clientes”, defende. 

Os usuários, alheios a essa discussão, comemoram o crescimento das fintechs e o aumento da competitividade do setor, que melhora o atendimento e propicia economia, principalmente pela ausência de taxas de adesão e anuidade.



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